BERÇÁRIO
:::BERÇÁRIO:::
Berçário
Na série Berçário, utilizo cascas de ovos quebradas inseridas em tubos de papel. O que se vê é uma matéria orgânica fragmentada, de textura áspera.
Diferentemente de outras séries, aqui não há diálogo cromático entre o interior dos tubos e o plano de fundo. A superfície é ríspida ao olhar. O interior dos tubos não devolve luz. A cor do fundo não acompanha as paredes; é como se não conseguisse aderir à matéria.
O formato em gota rompe a rigidez do cilindro e introduz uma forma orgânica, porém instável, prestes a ceder. A repetição dessas formas constrói uma simetria imperfeita.
A série se conecta de maneira silenciosa à crueldade do tráfico ilegal de animais.
Os ovos são o resto, sem promessa de nascimento. O trabalho não trata do ovo como objeto, mas do que ele simboliza: origem e continuidade.
Não é sobre ovos quebrados. É sobre a quebra de legados, sobre a ruptura de ciclos geracionais. E a responsabilidade por essa ruptura, ironicamente, deveria ser aprendida desde o início: deveria vir de berço.